Apresentação
Olá! Tudo bem? Espero que sim!
Esta é a minha primeira postagem aqui e eu
estou muito feliz por poder participar do “gntc”, um site pra lá de bem feito,
como somos capazes de notar já na primeira olhadela - e de confirmar a primeira
impressão do segundo olhar em diante.
Agradeço pelo convite e pela liberdade que me
deram de escrever o que quisesse. Aliás, a liberdade concedida já demonstra por
si só as boas intenções dos editores.
A minha ideia é a de usar o espaço com leveza e
me ocupar dele com contos, causos, poemas - meus e de outros -, e também com a
divulgação do trabalho de artistas e de outras iniciativas ligadas à cultura e
à arte. O que acham?
Então vamos começar com um texto que escrevi recentemente e que trata da minha ligação com um lugar muito especial, chamado Santíssima Trindade do Pirapora do Curuçá, mais conhecido por Tietê, a sua denominação atual. Aqui vai ele!
“Sic transit gloriae mundi”
(Augusto Neto)
Estou aqui elucubrando sobre a origem do meu
sobrenome Cruz (meu nome completo é Augusto Assis Cruz Neto). Sendo um
sobrenome muito comum em Portugal e considerando que foram eles que colonizaram
este lugar, não é difícil supor que o nome veio de um português que fez família
por aqui e de quem descendo.
No entanto, dois fatos, somados, me estimulam a
pensar que a origem do sobrenome possa ser outra.
Primeiro, a intrigante história que o meu pai
me contou há mais de 30 anos. Ele me disse que perguntou certa vez ao avô dele
(meu bisavô) se ele conhecera algum estrangeiro na família. E a resposta foi
inusitada, pois o avô lhe dissera que não conhecera nenhum estrangeiro na
família e também que, por coincidência, ele também fizera essa mesma pergunta
ao avô dele (meu tetravô), que lhe dera a mesma resposta negativa.
Se considerarmos que cada geração tem
aproximadamente 25 anos, o meu tetravô nasceu aproximadamente há 150 anos, no
ano de 1.871. E se ele puxou pela memória o passado para perquirir se havia um
estrangeiro entre os seus, possivelmente remontou ao tempo do próprio avô e,
assim, recuamos mais 3 gerações ou mais 75 anos e voltamos a 1.786, final do
século XVIII.
Ora, e cadê o meu ascendente português, que me
deu o sobrenome, afinal? Viera pra cá com a esquadra de Pedro Álvares Cabral e
sua existência se perdeu da memória familiar, já que não se lembram dele desde
235 anos atrás?
O segundo fato que considero é o de que o lugar
de origem da minha família, a cidade de Tietê, no interior paulista - e que foi
batizada com o mesmo nome do rio que lhe atravessa - um dia chamou-se Curuçá. E
por que? Porque há uma pedra grande na barranca do rio (bem perto do local onde
o vilarejo se estabeleceu) e nela uma grande cruz entalhada, seguida da frase
em latim “sic transit gloriae mundi", que significa algo como “a glória do
mundo é transitória”.
Pois bem, esse lugar ficou conhecido como
Curuçá, que era o modo como os índios locais diziam a palavra “cruz” que
ouviram dos portugueses e adotaram para si, adaptando-a à sua pronúncia (um
estrangeirismo que se fixa na língua mãe, como piquenique nos veio do inglês
picnic).
Enfim, chegamos ao ponto: é possível que
habitantes da vila que se formara em torno da pedra da cruz (ou pedra do
curuçá) fossem conhecidos por Cruz em razão do lugar que habitavam, algo muito
comum no passado, sobretudo quando sequer havia sobrenomes (Jesus de Nazaré,
pois ele viera de um local chamado Nazaré; Paulo de Tarso, o apóstolo, nascido
na cidade de Tarso, na Turquia; etc.), e algo que se manteve ao longo do tempo
dando origem a sobrenomes formais.
Gosto muito da ideia de que meu nome tenha
vindo da pedra, ainda mais que além da cruz ela traz uma mensagem existencial,
filosófica, de que tudo é efêmero, transitório, de que todos nós passaremos e
seremos esquecidos - como teria se dado
com o próprio português de quem eu teria herdado o sobrenome.