Eu me lembro da primeira vez que fui chamado de “viado” por alguém. Eu não sabia direito o que essa palavra significava, mas eu sabia que não era algo bom. Me lembro da primeira vez que apanhei por querer beijar o rosto de outro garoto, mas não entendia o ódio contido naquelas palmadas, porque era comum ouvir: “Estou corrigindo você por amor”.
Com o tempo ficou fácil de perceber que não era algo bom ser gay, bi, ou “sei lá” como eu posso definir esse sentimento peculiar e individual que costumamos chamar de sexualidade. Por que eu precisava andar como homem? Por que eu deveria falar como homem? Por que eu deveria me vestir como um homem se eu era apenas uma criança que mal entendia os papéis de gênero que tentavam me impor?
Percebi que eu não estava preparado para encarar o mundo no qual nasci sendo eu mesmo, um mundo onde dificilmente eu via garotos beijando e abraçando o próprio pai ou qualquer outra figura masculina da família. Onde chorar era intolerável, uma coisa feia, homem não chora, homem não reclama denada, o HOMEM deve sempre ser a base da família, ter uma esposa e filhos, foi o que me ensinaram.
Por anos tive que construir uma personagem, uma criatura grotesca, supremacista religosa e heteronormativa que vivia em uma fortaleza de medo e intolerância. Ser eu mesmo era intolerável aos olhos dos que me criaram, isso traria desgosto e desgraça ao meu Deus e a minha família. Sempre pensei em cada um deles antes de cada passo, cada fala, cada gesto, cada atitude e opinião manifestada. Eu era uma personagem, um ser constituído pela família tradicional brasileira e pelo meu próprio meio social que acreditava em um ideal de masculinidade: alto, forte, branco, líder, atraente esteticamente, masculino, comportamento viril, apaixonado por esporte, o desejado pelas mulheres, sem delicadezas, sem nojos, heterossexual, cristão, azul sim, rosa não, xixi em pé, barbudo, conquistador. Mas como tudo na vida, esse personagem não permaneceu por muito tempo.
Como poderia? Ele não era real, ele não era, nunca foi, e nunca será de verdade. Com o tempo eu me perdoei pelas coisas que fiz comigo mesmo e pelas atitudes que tomei ao sustentar essa figura monstruosa que afastava de mim todos aqueles que me machucavam e também todos que poderiam me amar, me amar pelo que eu realmente era, pelo ser de dentro do armário.
Com o tempo, essas tantas camadas impostas foram decaindo e foi se construindo uma pessoa de tantas fases, pensamentos, expressões diferentes. Percebi que ser forte é entender os próprios sentimentos e a natureza peculiar de cada criatura na terra. Força se tornou o sinônimo de procurar pela igualdade em amar, viver e se manifestar como é da garantia de qualquer pessoa de acordo com a lei.
Uma nova perspectiva foi trazida até mim quando comecei a me entender e entender meu papel nesse mundo como ARTivista LGBTQIA+. Ver pessoas heterossexuais se amando e sendo quem elas eram na minha frente, e ver que elas não sofriam nenhum tipo de violência por conta disso me deixava triste quando pensava sobre minha condição, hoje me causa revolta, não o fato delas serem livres para amar, mas o fato de que eu não posso andar de mãos dadas com meu namorado na rua porque posso ser agredido ou até mesmo morto por aqueles que dizem pregar a paz e os bons costumes.
O Brasil é um país culturalmente homofóbico, uma cultura que deve se extinguir e é claro que assim como toda mudança revolucionária no mundo acabar com o preconceito também vai gerar incômodo nos radicais elitistas e conservadores que sempre se aproveitaram dos oprimidos. Quando uma classe oprimida se levanta contra seu opressor, ela abre espaço para que outras minorias se levantem e gritem: CHEGA. CHEGA DE VIOLÊNCIA, CHEGA DE DESIGUALDADE. Isto porque quando uma pessoa que por muito tempo se escondeu se levanta contra a violência social sofrida através de gerações ela permite que todo um grupo comece a criar coragem para jogar pedras nos carros da intolerância assim como MarshaP. Johnson, uma travesti Drag Queen e ativista dos Estados Unidos pela libertação LGBT.
Conhecida pela luta a favor da libertação LGBT, Johnson foi uma das personalidades proeminentes da Rebelião de Stonewall, considerados como o evento mais importante que levou ao movimento moderno de libertação gay e à luta pelos direitos LGBT. Ou como Marielle Franco, mulher, negra, lésbica, mãe, filha, irmã, esposa e cria da favela da Maré. Socióloga com mestrado em Administração Pública. Foi eleita Vereadora da Câmara do Rio de Janeiro, com 46.502 votos. Foi também Presidente da Comissão da Mulher da Câmara. No dia 14/03/2018 foi assassinada em um atentado ao carro onde estava. 13 Tiros atingiram o veículo, matando também o motorista Anderson Pedro Gomes. Quem mandou matar Marielle mal podia imaginar que ela era semente, e que milhões de Marielles em todo mundo se levantaram no dia seguinte.
O mês do orgulho LGBTQIA+ não se trata apenas de levantar uma bandeira, não se trata de marchar em uma avenida ao som de Anitta e Pablo Vittar. É mês de luta para que toda criança gay, lésbica, bi, trans, queer e travesti não tenha que se esconder ou se transformar em um armario ambulante quando ouvir a palavra “viado” sendo dita em tom opressor. Que levantem suas vozes e lutem pelos seus direitos garantidos pela lei.
O meu passado dentro de um armário foi queimado pela chama de um coração que não conseguia mais tolerar a desigualdade, foi Marsha, foi por Marielle, foi por cada LGBT que não pode levar o namorado(a) no almoço da família ao domingo, por cada garoto ou garota que tem seu comportamento e seu estilo de roupas questionado(a) pelos professores, pelos colegas de trabalho, por estranhos nas ruas que se sentem na liberdade de ditar como eu devo ser e me manifestar no mundo. O mês do orgulho se trata em lembrar o estado do seu dever em garantir a nossa segurança, nossa saúde e nosso bem-estar social.