A escalada da violência de gênero e os últimos casos que chocam o país

O número de mortes de mulheres motivadas por seu gênero — o chamado feminicídio — continua em níveis alarmantes no Brasil, mesmo diante de avanços legais e maior visibilidade do problema. Em 2024, foram registrados 1.492 feminicídios em todo o país — o que representa, em média, quatro mulheres assassinadas por dia apenas por serem mulheres.

O retrato de 2024–2025: estatísticas e perfil das vítimas

Dos casos de homicídios de mulheres, 35,2% foram classificados como feminicídio.

A esmagadora maioria das vítimas — cerca de 97% — foi morta por homens.

Em 80% dos casos, o agressor era companheiro ou ex-companheiro da vítima; e 64,3% dos crimes ocorreram dentro de casa.

Entre as vítimas, mais de 60% eram mulheres negras; e a faixa etária mais atingida foi a de 18 a 44 anos.

Esses dados confirmam que o feminicídio não é apenas uma tragédia individual — é um fenômeno estrutural, profundamente enraizado no machismo, no racismo e na desigualdade de gênero.

Casos recentes e o aumento da gravidade: armas de fogo e tentativas

Em 2025, um levantamento do Instituto Fogo Cruzado revela que os feminicídios — e tentativas de feminicídio — cometidos com arma de fogo subiram 45% em relação ao mesmo período de 2024. Das vítimas identificadas, 86% foram atacadas por companheiros ou ex-companheiros; a maioria dos crimes ocorreu dentro de casa.

Além disso, casos recentes como o de uma tentativa de feminicídio ocorrida em 29 de novembro de 2025 na zona norte da São Paulo reacendem o debate nacional sobre a urgência de punição exemplar para agressores — e sobre a necessidade de maior proteção e alerta da sociedade.

Julgamentos em alta — mas impunidade ainda assusta

Apesar da escalada da violência, há um avanço formal no sistema de Justiça: o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) registrou um aumento de 225% no número de julgamentos de feminicídio entre 2020 e 2024.

No entanto, esse avanço em julgamentos não tem sido suficiente para estancar a onda de violência. A persistência dos crimes mostra que a punição por si só não basta se não vier acompanhada de educação, políticas públicas eficazes e mudança cultural.

Por que o Brasil segue sendo palco de tantos feminicídios?

A violência doméstica continua sendo majoritariamente praticada no ambiente privado, onde o controle, a possessividade e o machismo estrutural têm terreno fértil.

A maioria das vítimas pertencem a grupos historicamente vulnerabilizados — mulheres negras, jovens e em situação de dependência afetiva ou econômica — o que evidencia o entrelaçamento entre gênero, raça e classe.

A subnotificação, o medo de denunciar, a normalização da violência e a falha no acompanhamento das medidas protetivas agravam o risco de novas tragédias.

A necessidade de ação coletiva: Sociedade, Estado e Cultura

O retrato traçado pelas estatísticas e pelos casos recentes exige mais do que tristeza: requer ação. É fundamental:

Que a sociedade não se cale diante de sinais de violência — denunciar, apoiar vítimas, defender a igualdade de gênero.

Que o Estado invista em políticas preventivas: educação em direitos humanos, capacitação de forças de segurança e serviços de acolhimento e proteção eficientes.

Que se fortaleça a educação desde a infância, com promoção de respeito, empatia e igualdade, combatendo os pilares do machismo e da discriminação.

“Uma mulher morta a cada 34 horas no estado mais rico do país. Um feminicídio a cada 17 horas em 2024, no mínimo, em nove estados monitorados. São estatísticas que deveriam ser inaceitáveis para qualquer sociedade que se diga civilizada.”

O Brasil convive hoje com uma chaga social: o feminicídio. E fechar os olhos para esse problema seria negar a dor de milhares de mulheres e famílias. A mudança efetiva depende de nós — educação, igualdade, justiça e, sobretudo, respeito.